Recife – Hermilo Borba Filho. Boletim da cidade e do porto de Recife.

Jan – Dez, 1946-1949 nº 19-34

Recife

Hermilo Borba Filho

Os rios abraçando a cidade, provocando as pontes, os botes, os rapazes esportivos de calção; as velhas casas caindo sob as picaretas, os arranha-céus se levantando, as avenidas se abrindo e por elas correndo os ônibus e os automóveis, as bicicletas também; as casinhas d S. José ainda muito agarradinhas umas ás outras abençoadas pela sombra das igrejas solenes com o pêso do tempo; os cais do porto recebendo navios de terras longínquas, deles descendo homens musculosos vermelhos-amarelos-negros á procura de mulheres vermelhas-amarelas-negras na Rua do Bom Jesus; aviões que vêm de todas as partes do mundo aterrissando no Guararapes, na escadinha do bordo surgindo franceses, italianos, americanos do norte, gente de fala estranha á procura de coisas exóticas da terra, grandes cachimbos pendurados na boca e roupas de grossura de dois dedos suando ao sol; mocambos enterrados dentro da água e da lama, meninos pescando carangueijo nas noites de lua, os violões tocando dentro a noite, a cachaça correndo pela guela dos calungas de caminhão; o pessoal da resistência no Cáis do Apolo, quase todo negro, os músculos lustrosos se salientado à luz do dia na tarefa de sacudir sacos de açúcar nas barcaças que se destinam a goiana, Rio Formoso, Maceió, Natal; campos de futebol cheios de gente exaltada que grita pelos jogadores, que toma guaranás, que aposta no primeiro goal; corridas no Prado, Os cavalos servindo os homens bem vestidos e os rapazinhos em manga de camisa; as mulheres elegantes fazendo compras na rua Nova e os mocinhos endinheirados dirigindo pilhérias às mulheres fazendo compras; os bares com todas as mesas ocupadas nas tarde de inverno ou verão, onde senhores, adolescentes e rapazes ingerem quantidade enorme de bebidas alcoólicas, enquanto nas sorveterias os lábios vermelhos das mocinhas tingem as taças; nos alagados e subúrbios distantes o batuque de dona santa; mais distante, em Água Fria, Lídia chama os fiéis para o culto do xangô; os trens da Great-Western apitam desesperadamente, chegando na Estação central, saindo da Estação Central; nas praias os corpos quase nús e uma côr de mar como só se encontra no Nordeste; os médicos estão ocupados nos seus consultórios; os advogados escrevem folhas e mais folhas de papel; os engenheiros gastam não sei quantos lápis nos cálculos mais compicados de uma matemática construtora de pontes e edifícios; os enfermeiros curam feridas; a assistência passa uivando; em cada portão escuro existe um par de namorados que procura fugir aos olhares da Rádio Patrulha; nas repartições públicas os funcionários estão ocupados e outros andam à procura de uma ocupação; os jornais rodam suas máquinas durante a noite: Mauro Mota, Guerra de Holanda, Aderbal Jurema, Esmaragdo Marroquim, silvino Lopes, Anibal Fernandes, Paulo do Couto Malta, Luis Beltrão; os escritores escrevem cada vez mais: Gilberto Freyre, Luiz Delgado, Odilon Nestor, Édson Nery da Fonseca; os poetas fazem versos de todos os modos; José Laurênio de Melo, Édson Regis, Ariano Suassuna; os homens de teatro montam peças; os acadêmicos discutem prêmios; os capitalistas resolvem fazer uma viagem a París; os políticos discutem a sucessão estadual; no horto de Dois Irmãos as onças passeiam desesperadamente à procura de uma brechazinha para fugirem; a prontidão de luz demora a atender o chamado do curto-circuito; todos os telefones estão ocupados com recados urgentes, pedidos de parturiente, conversa de namorados, premeditação de crimes; obscenidades, trotes, todos os homens andam apressados nas ruas, vai chover; tôdas as mulheres andam lentamente pelas ruas, vai fazer sol; cada ano que passa o calor aumente e os frades de papelão nunca se cobrem; Césio Regueira Costa conta a história de um calor intenso na cidade lá pelo ano de mil oitocentos e tantos; as estações de rádio trazem artistas famosos; os cinemas se abarrotam diariamente; os meninos crescem ou morrem cedo; os chefes de família, suados e curvados, carregam grandes embrulhos e apanham o bonde correndo; as rilas de ônibus avançam lentamente na hora das seis; as moscas voam por cima dos pratos descobertos nos café de terceira ordem da rua Direita; o carrilão do Diário de Pernambuco deixou de ser mudo; os jardins estão desertos, proibindo o namoro; as datilógrafas sonham com um mundo onde não existam máquinas de escrever; descobrem-se remédios extraídos de plantas medicinais; pode-se ouvir boa músicas Tôda tarde nas cabines da Discoteca Pública Municipal, onde invariavelmente os visitantes pedem cantigas próprias da região; pode-se comer uma boa peixada no Pina e uma boa água de coco em Boa Viagem; alguns sinos de igreja tocam sempre o meio-dia, hora da pressa e da barriga vazia; há um homem atropelado e estendido no meio da calçada, gente rodeando; o carnaval é o melhor do mundo, surgem todos os coloridos; Hamilton Fernandes sente-se enrascado para ilutrar uma rapsódia igual a esta; Hélio Freijó procura um caminho; lá na Diretoria de Documentação e Cultura, dona Azeneth anda as voltas com pagamentos e ofícios bem redigidos, enquanto seu tio Souza Barros sonha com uma tradição artística para a cidade; os meus filhos não me deixam escrever, igualzinho aos filhos de tantos sejeitos por ai afora que proíbem a idependência dos pais; as livrarias se queixam de que ninguém compra livros; há uns rapazes intoleráveis que, na ponte da Boa Vista, tiram instantâneos de todas as pessoa que passa, às vezes comprometendo algumas; de madrugada, somente leiteiro (vivo apesar de Carlos Drumond de Andrade) e as sentinelas dos quartéis; ruídos, apitos, gaitas, derrapagens, businas, gritos, chamados, choros, risos, gargalhadas, uma pessoa danada, uma lentidão de enervar, amor, ciume, morte, roubo, tranquilidade; e eu cansado de escrever à máquina.


Duas bibliotecas populares mantem a diretoria de documentação e cultura, da Prefeitura Municipal do Recife, uma no bairro da Encruzilhada e outra em Santo Amaro. As bibliotecas permitem o livre acesso às estantes, fornecendo livros para a leitura em domicílio. Orientadas, sobre tudo, no interêsse das classes menos favorecidas, as bibliotecas apresentam intenso movimento de leitores, oferecendo-lhes obras de caracter téorico e didático, além de revistas nacionais e estrangeiras.

By | 2016-12-16T19:08:39+00:00 15 de dezembro de 2016|Cidades|0 Comentários

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