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Regata Inesperada – Mário Sette. Boletim da cidade e do porto de Recife


Jan – Jun, 1943 nº 7-8

Regata Inesperada

Mário Sette

Os espetáculos inesperados no quotidianismo de uma cidade tém um sabor indefinivel. Excedem mesmo, no seu prazer, aos previamente anunciados. Aqueles se desenrolam no seu pitoresco, num cenário de escolha momentânea e diante de espectadores eventuais. Ninguém conta com éles e de súbito se oferecem num ar de surprésa incomparavel.

Foi assim que se realizou uma regata em 19 de janeiro 1870. Não uma regata com pavilhões armados no cais do Capibaribe ou na Rua da Aurora; Nem com bandas de música a tocar; nem com raia marcada no rio; nem com assistência de damas de capote de vidrilhos a moças com chapéu de palha desabados… Nada disto.

Méro dia de trabalho ao adoçar-se à tarde. Viração do mar. Mas ainda muita luz, muito azul, muita vida, na natureza. O Cais de Ligueta já ia perdendo um pouco o seu movimento de negócios, porque a praça houvera encerrado o expediente. Homens do alto comércio, corretores, funcionários dos bancos tinham quase todos se retirado para suas casas, que o jantar, nesse tempo servido cedo, os esperava. Pelos banquinhos de ferro, circulando a gameleira, apenas embarcadiços em descanso de escala a conversar com as raparigas angustiadas ruas vizinhas; guardas da alfandega de espreita aos contrabandos; carroceiros a tomar uma bicada nos quiosques; desocupados sempre curiosos das canas do mar; catraeiros sem frente nessa tarde de nenhum Paquet e Inglês no Lamarão nem tampouco vapor do Loide a sair.

Relativa tranquilidade para aquele recanto da cidade, seu antigo e conhecido vestíbulo, com sobradões de águas-furtadas ou mirante, com hotéis e restaurantes de gente séria e alegre; com suas famosas árvores sombreadoras e com suas chegadas e partidas imponentes ou discretas. Abraços de adeuses, com lágrimas, beijos de recepção, com sorrisos. Palestras de cotação de açúcar, e de companhias líricas. Negras a vender bolos e tapiocas. Vapores e veleiros ao largo…

De repente, há um sussurro, um princípio de ajuntamento. Barulho? Homem caindo nagua? Aparecimento de tubarão? Que foi? Todos querem ver e se inteirar. Não havia mistério: dois proprietários de botes tinham feito uma aposta singular. José Pires e Vicente Ferreira. Discutiam a velocidade dos seus barcos quando lhes brotou a ideia de uma prova indiscutível para apurar a superioridade, em rapidez, de um dos barcos. Iriam ambos, a fôrça de remos, até ao pôrto externo, ao Lamarão, dariam volta num cargueiro ali fundeiado e demandariam imediatamente o ancoradouro interno, as rampas da Lingueta. Quem o fizesse em menor tempo estaria senhor da vitória e do título de máximo corredor. O vencido entregaria ao vencedor o seu próprio escaler e eainda pagaria 200$000 aos remadores.

Aceito? Pois não. Reduziram a escrito as condições, testemunhas assinaram também o documento. Escolheu-se um juiz para seguir num dos botes. Tudo resolvido. Expectativa a aumentar de minuto em minuto. Povo do Largo do Corpo-Santo, de Fóra de Portas, do cais do Apolo, do Beco das Sete Casas, a afluir. A regata enchia a margem do rio até o Brum. Os botes estão tripulados; os remadores empunham os remos. Emparelham-se rigorosamente as duas embarcações.

A um sinal, golpeia-se a água mansa do rio e parte-se. Rompem aplausos na assistência; gritos de encorajamento dos partidos já organizados. Um pró-José Pires, outro pró-Vicente Ferreira. E lá se vão os escaleres e remadas seguras, ritimadas. Percorrem o rio, dobram o farol, entram no mar. As ondas estão pouco ariscas, mesmo assim encrespam-se um bocado e encobrem por vezes os corredores aos olhos dos que os acompanham de terra. Ressurgem… Já alcançam o vapor. Rodeiam-no. Voltam. Vem um bote á frente. Qual? Mas, de repente parece perder a vantagem… Os partidários vociferam, aplaudem, animam-se, marcham. Estão novamente nas águas bonançosas do rio. Vem avançando para a Lingueta Não há nenhuma duvida agora: é Vicente Ferreira quem toma à dianteira. Não lha roubarão mais.

E os que tomaram partido por êle atroam os ares com suas aclamações. Palmas, vivas, berros. E, tanto o espetáculo crescera de importância, foguetes; dali a pouco o bote de Vicente estacava defronte do cais. Os remos caiam em repouso e os tripulantes punham-se de pé triunfantes. O bote de José Pires vinha alguns metros atrás.

Quinze minutos de ida e volta.

Vicente Ferreira ganhara a aposta. O seu escaler era realmente a fléxa do porto…


Herodoto dizia que o Egíto era um dom do Nilo. Tudo lá era fruto das águas: terra, economia e religião. Tambem o Recife – essa pitoresca cidade, discreta e envolvente – é um dom dos seus rios. Das águas de seus rios encontrando as águas do mar formando bancos de pedra – recifes. Rios que deram origem á cidade e foram importantes fatores de sua história. Rios nativistas, como os chamou Artur Orlando que ajudaram a expulsar da pátria o invasor holandês. Rios valentes, aos quais o caboclo do nordeste empresta em sua fantasia, uma alma impetuosa e violenta. De quem nascee predestinado á aventura. Alma igual á do próprio caboclo nordestino. Rios que vêm de mito longe, disfarçando no acaso de seus coleios a ânsia de se encontrarem.

Josué de Castro. DOCUMENTÁRIO DO NORDESTE – 1937

By | 2016-12-15T16:23:31+00:00 15 de dezembro de 2016|Cidades|0 Comentários

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