Exposição “Desterro: enquanto eles cresciam”

Exposição de Juliana Notari apresenta o conjunto de obras concebidas ao longo dos dois anos em que a artista ficou sem cortar os pelos

A exposição “Desterro: enquanto eles cresciam”, da artista visual pernambucana Juliana Notari, está em cartaz no Museu da Cidade do Recife. A mostra apresenta o conjunto de obras concebidas ao longo dos dois anos em que a artista ficou sem cortar ou retirar os pelos do seu corpo. No decorrer do tempo e à medida que os pelos cresceram, novos significados e possibilidades estéticas surgiram e seu resultado será exposto através de fotografia, desenho, escultura e as vídeos performances.

A exposição, que tem o incentivo do Funcultura e apoio do Museu, possui acessibilidade através do recurso da áudio-descrição. Indicada para o público adulto, a mostra tem censura de 18 anos e ficará em cartaz até o dia 17 de janeiro. Com entrada franca, o Museu funciona de terça a domingo, das 9h às 17h.

SOBRE A EXPOSIÇÃO
Pela primeira vez a artista exibirá o resultado final dessa experiência que culminou na realização da obra Muda 1, que é a escultura da sua cabeça composta pelo resíduo da sua depilação com cera após passar os dois anos sem se depilar. Compõe a escultura a videodepilação Muda 2 na qual é possível perceber o processo da depilação da artista em detalhes e aproximações que expressam ao mesmo tempo a violência e a beleza estética da ação.

Na série Ar-Dor, composta por desenhos em nanquim, sangue e pelos da artista, a questão da histeria feminina é trazida à tona por meio da estética das referências fotográficas de pacientes que compõem a iconografia entre 1875 e 1880. Nos estranhos sintomas, convulsões e acrobacias do chamado “grande ataque histérico”, essas mulheres colocavam em cena seus corpos e desafiavam a moralidade vitoriana. A mostra traz também fotografias da série Sorterro e vídeos-performances Mimoso e Soledad, produzidos também ao longo dos dois anos.

SOBRE A PESQUISA DESTERRO:
O processo de trabalho envolvendo o “tempo” e o “corpo” foi o início. Muitas questões atravessaram esse trabalho, que se insere no debate acerca do humano e do “pós-humano”. No cerne dessa discussão encontram-se os processos de autodesconstrução / reconstrução, que a transformação externa tornou-se mais visível.

O corpo e a construção de gênero feminino na série “SORTERRO” são postos em cheque, na medida em que os pelos não se encaixam em certo clichê da beleza feminina, culturalmente construído. Os trabalhos, no entanto, abrem brechas para olhares ambíguos uma vez que do informe do corpo piloso, um outro modo de perceber o corpo feminino ganha força: o pelo não denota uma tentativa de aproximação ao masculino nem automaticamente pode ser enquadrado na categoria do “feio”. A beleza do pelo pode decorrer da própria erupção de uma outra estética feminina que subverta o padrão dominante de beleza. A artista estaria, desse modo, cultivando e construindo um caminho para outro modo de pensar o que é o belo e o feminino.

O cabelo e o pelo desde sempre despertaram o interesse da artista, em função do potencial simbólico que carregam: remetem à animalidade, a forças originárias e instintivas. Ao mesmo tempo, permitem extrema flexibilidade para cambiar significados. Embora façam parte do corpo, os cabelos possuem características que são diferentes daquelas que passam a ter após terem sido retirados (quando inspiram nojo, por exemplo). Essa insistência no retorno, na repetição e na impossibilidade de controle da aparição dos pelos, faz com que eles frequentem, no imaginário da artista, a mesma região das pulsões, no sentido psicanalítico.

SOBRE A ARTISTA
Artista visual pernambucana, vive atualmente no Rio de Janeiro, é doutoranda em Artes Visuais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ, 2016). Em 2001 Juliana realiza sua primeira individual “Assinalações” no Museu da Abolição em Recife, PE. Juntamente com outros artistas funda em 2000 o espaço coletivo “Atelier Submarino” no Recife, onde desenvolve atividades artísticas e produções coletivas dentre as quais está a “Exposição Casa Coisa”, marco na arte contemporânea do Recife nos anos 2000.

Desde lá realizou várias exposições individuais, participou de diversas mostras e recebeu prêmios onde se destacam os: “Prêmio do Salão Arte Pará 2014”, “Prêmio Funarte – Mulheres nas Artes Visuais 2013”; “Prêmio Bolsa de pesquisa no Salão de Arte Contemporânea de Pernambuco, 2004.”

Representa o Nordeste em 2005 no Ano do Brasil na França nas mostras: “Brésil Pernambuco Art contemporain” na École Supérieure d’Art d’Aix-en-Provence e na mostra “Territoires Transitoires” no Palais de la Porte Dorée em Paris. Integra as mostras: “O Corpo na Arte Contemporânea Brasileira”(2005); “Trilhas do Desejo – Rumos Artes Visuais” (2008/2009) no Instituto Itaú Cultural, São Paulo; “Tripé/Escrita” no SESC Pompéia, São Paulo, 2010; “Festival Performance Arte Brasil” no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM-RJ, 2011; “Metrô de superfície” no Paço das Artes, São Paulo, 2012; “Transperformance 2 – Inventário dos Gestos” no Oi Futuro/ Flamengo, Rio de Janeiro, 2012. Em colaboração com a crítica e curadora de arte Clarissa Diniz, Lançou o livro “Dez Dedos” em 2011, o qual reúne fotos de trabalhos da sua primeira década de carreira com textos críticos de diversos, curadores e críticos de arte. Possui trabalhos em coleções privadas e públicas entre elas; Museu de Arte do Rio (MAR, Rio de Janeiro), Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM, Recife) e Coleção do Banco do Nordeste (CCBNB, Fortaleza).

SERVIÇO

Juliana Notari – Desterro: enquanto eles cresciam
Curadoria – Clarissa Diniz

Lançamento e bate papo com artista 17/12/2016, sábado, 17h
Em cartaz de 17/12/2016 a 17/01/2017
No Museu da Cidade do Recife
Praça das Cinco Pontas, s/n – São José
Visitação: terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada gratuita
Censura: 18 anos

By | 2017-03-23T14:12:39+00:00 15 de dezembro de 2016|Exposições Anteriores|0 Comentários

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